5 de mar. de 2014

Papa Francisco envia mensagem para a Campanha da Fraternidade 2014


Por ocasião da abertura da Campanha da Fraternidade 2014, que aborda o tema "Fraternidade e Tráfico Humano" e o lema "É para a liberdade que Cristo nos libertou",  o papa Francisco enviou mensagem aos bispos da CNBB e  a todos os fiéis das dioceses, paróquias e comunidades do Brasil. No texto, o papa afirma que o tráfico de pessoas é uma “uma chaga social”.
“Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano!”, destacou Francisco. 

Ao final da mensagem, Francisco concedeu bênção apostólica a todos os brasileiros desejando uma Quaresma de vida nova em Cristo.

Confira a íntegra da mensagem:
Queridos brasileiros,
Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recordo a vitória da Páscoa: <<É para a liberdade que Cristo nos libertou>> (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: <<Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!>>. Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõe este ano o tema “Fraternidade e Tráfico Humano”.
Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! <<A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência>> (Discurso aos novos Embaixadores, 12/XII/2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?
Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais... E isso – pasmem! A troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós:<< “Abbá, Pai!”>> (cf. Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf. Evangelii gaudium, 75).
Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.
Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.
Francisco

Fonte: Homepage CNBB

1 de mar. de 2014

Mensagem do Papa Francisco - Quaresma 2014.

 Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: «Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza» (2 Cor 8, 9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?
A graça de Cristo
Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: «sendo rico, Se fez pobre por vós». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, «esvaziou-Se», para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2, 7; Heb 4, 15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus «trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).
A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – «para vos enriquecer com a sua pobreza». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Batista para O batizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a «insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8), «herdeiro de todas as coisas» (Heb 1, 2).
Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10, 25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu «jugo suave» (cf. Mt 11, 30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua «rica pobreza» e «pobre riqueza», a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8, 29).
Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.
O nosso testemunho
Poderíamos pensar que este «caminho» da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d'Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiênicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diaconia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo.
O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.
Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína econômica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.
Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.
Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser «tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo» (2 Cor 6, 10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!
Vaticano, 26 de Dezembro de 2013
Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir.
Francisco


Fonte: Homepage CNBB

28 de fev. de 2014

Hans Jonas - Crise ecológica



Hans Jonas e o Princípio Ético da Responsabilidade Ambiental
em Tempos de Crise Ecológica
Geni Maria Hoss


Introdução


 Considerando-se o desenvolvimento gerado a partir dos avanços tecnológicos urge fazer uma reflexão apurada sobre as implicações éticas sobre a biosfera em todo este processo. Entre os importantes pensadores do último século que se ocuparam com a questão se encontra Hans Jonas (1903-1993), tendo como mestres, entre outros, Husserl e Heidegger
Antes, porém, vale lembrar Fritz Jahr que já em 1927 aponta para um importante princípio ao desenvolver o tema das relações éticas dos seres humanos com os animais e plantas: "Respeita cada ser vivo em princípio como uma finalidade em si e trata-o como tal na medida do possível" (JAHR, 1927).
Não basta, no entanto, discurso isolado e desconexo aqui e acolá. Grandes nomes surgiram no século XX, que desenvolveram o tema sob diversos aspectos e de uma forma mais ampla e consistente, tentando apresentar formas eficientes que pudessem servir de argumento no grande cenário mundial. Surgem nomes como Albert Schweitzer, (1875-1965), ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1952, que chama a atenção, entre outros, para a realidade da indissolubilidade do ser humano com seu ambiente e centraliza suas reflexões no tema do respeito pela vida: Respeito diante de todas as formas de vida. O antropocentrismo unilateral, ou como apresenta Hans Jonas, o "estreitamento antropocêntrico" é sem dúvida um importante empecilho no desenvolvimento de relações éticas com todos os elementos da biosfera.
As novas dimensões da responsabilidade que Hans Jonas apresenta consideram as mudanças em todos os âmbitos geradas pelos avanços científicos e que conferem super-poderes ao ser humano, sem, contudo, ele ter poder muitas vezes pelas conseqüências do exercício de seu poder.. O ser humano não está isolado dos outros seres vivos, é antes um deles e comunga com eles interdependência que permite sua subsistência ou o condena à extinção. Hans Jonas não questiona apenas o poder de interferência e possível mudança do ser em si, mas também a aceleração dos processos de tal forma que o metabolismo – [Stoffaustausch] é afetado em seu decurso normal, não podendo se regenerar e recriar num processo, cujo ritmo é regulado pelo próprio ciclo da Natureza.
 O ser humano não é "soberano e proprietário da Natureza", conforme afirma o matemático e filósofo René Descartes (1596-1650), no início do Iluminismo, mas lhe cabe a responsabilidade pela Natureza integral, isto é, o equilíbrio de toda a biosfera depende do ser humano. O saber do alcance do poder fazer e as suposições das conseqüências, que este mesmo saber permite, confere ao ser humano um importante papel no processo de preservação ecológica, isto é, da preservação de sua própria casa e a de todos os seres vivos. "É prerrogativa da liberdade humana de dizer não ao mundo" (JONAS, H. p. 148). O mundo – a biosfera – é dotado de valores inerentes à sua finalidade, mas é dado ao ser humano a liberdade de respeitar estes valores e até mesmo renegá-los. Por isso, a importância de se refletir sobre a responsabilidade dos seres humanos pelo e no planeta. Segundo Jonas, o ser humano, por sua superioridade do pensamento está destruindo o "equilíbrio simbiótico". Desta forma, ele está sendo uma ameaça para si próprio.
Ele – Hans Jonas - como representante da argumentação ética do "Basic-Needs-Argument", parte das necessidades básicas como alimento, teto, saúde, enfim condições naturais, as quais estão ameaçadas pelo estilo de viver e ser da humanidade na era industrial, reflete e faz refletir sobre as possibilidades, mesmo que incertas, geradas pela tecnologia.
Viver o presente em função do futuro, do devir, e trazer o futuro para o presente é importante elemento da ética apresentada por Hans Jonas. Daí a ética não somente se ocupar e questionar sobre o ser existente, mas também com o ainda não-existente, e o não-existente na relação do hoje existente, pois não há uma responsabilidade futura em relação ao não existente hoje. Nesta perspectiva não há, por isso, uma relação de reciprocidade direito-dever, próprios da convivência na mesma biosfera uma vez que o não-existente nada fez para o existente aqui e agora. Mas terá ele direito de ser um dia? Quem lhe deve garantir este direito?
            Uma ética do Meio Ambiente – da biosfera – se apresenta na pós-modernidade como única chance de sobrevivência de todos seres vivos.

Hans Jonas e o Princípio Ético da Responsabilidade Ambiental em Tempos de Crise Ecológica.

 Uma análise da atualidade em vista de suas tendências de globalização e a destruição da Natureza, aponta para um uma urgente mudança de paradigma. Segundo Hans Jonas, uma nova consciência é um pressuposto necessário para evitar uma catástrofe ecológica. A dialética do Iluminismo chegou a ponto de confluir para uma catástrofe. Neste contexto, Hans Jonas reflete sobre um novo princípio, o Princípio Responsabilidade, que vai além das relações recíprocas de sujeitos, sabe-se também responsável pela Natureza. A ética precisa reagir aos desafios da Ecologia e a uma visão alterada do mundo através dos avanços tecnológicos. Se de um lado o mundo está em perigo por causa da bomba atômica, a medicina moderna é beneficiada ao mesmo tempo constantemente desafiada a responder questionamentos éticos relativos às possibilidades criadas nos últimos anos. A argumentação filosófica de Hans Jonas parte da necessidade e imperativo da hora. É próprio do ser humano sentir-se responsável por aquilo que coloca sua vida em jogo. Por isso, é preciso refletir sobre os desafios da atualidade antes que aconteça a catástrofe, uma possibilidade iminente. A posição do pensar filosófico de Hans Jonas está na pré-reflexão. A teoria da responsabilidade começa no Eu e no seu dever moral. Porém, trata-se, sobretudo, de uma ética na perspectiva do coletivo e do futuro. Somente quem tem o "projeto futuro" enraizado em convicções morais, pode dizer que cumpre a máxima da responsabilidade em relação ao ser e ao vir a ser. O pressuposto para uma relação de responsabilidade é a constante crítica da razão. O indivíduo racional, segundo Hans Jonas, está diante do dilema: Ou ele usa a inteligência para o avanço ilimitado à custa de catástrofes ecológicas, ou ele controla e orienta as possibilidades de desenvolvimento. Isto não significa que deve parar de pesquisar, mas que deve incluir ponderações sobre as possíveis conseqüências de sua pesquisa em macro e micro dimensões. Hans Jonas propõe como centro da reflexão ética o perigo previsível, um olhar para o possível impacto planetário, conseqüências para toda a humanidade, entre outros cenários, que podem orientar os princípios éticos e novos deveres no novo poder. A isto ele denomina de “heurística do temor”. Urge estabelecer princípios éticos amplos e consistentes para garantir existência de vida futura no planeta. O que deve ser priorizado e preservado no ser humano em vista dos perigos e ameaças a fim de se chegar a um querer ético de respeito diante de todas as formas de vida que compõe a biosfera? A Natureza dá sinais de alerta e Hans Jonas espera que estes sejam o suficiente para que haja uma reação positiva no sentido de salvar o planeta. O temor se sobrepõe à razão e obriga a respostas rápidas e eficientes. Esta percepção de Hans Jonas nasceu da constatação dos vultuosos problemas ecológicos e da desproporcional consciência ecológica da humanidade a tal ponto de ela própria estar no rumo da extinção. "Nós sabemos apenas o que está em jogo, se sabemos que está em jogo", (Jonas, p. 8).
Jonas amplia sua ética também no sentido vertical, isto é, o cosmo universal e o transcendente é o horizonte de alcance da ética, considerando-se as conseqüências das ações dos seres humanos. Ele não se preocupa com a teoria da perfeição, da felicidade, da dignidade moral, mas com a possibilidade da existência em si em função do perigo que o mundo / cosmos corre. Segundo ele, é preciso preocupar-se em primeiro lugar com a sustentabilidade do mundo no futuro. Vale salvar o mundo antes de salvar os indivíduos. A ética antropocêntrica dá lugar a um paradigma ético supra-individual. Este dá conta de um salto necessário para o ser-com-o-mundo, onde se estabelece uma verdadeira relação de valor igualitário "Mitwelt", isto é, o respeito e encantos recíprocos não se estabelecem numa relação díspar centrada em algum elemento da Natureza, no caso do antropocentrismo, o ser humano.
Jonas parte da responsabilidade de pessoa a pessoa, porém, estendida à biosfera numa visão integral, contemplando a Totalidade, Continuidade e Futuro. Ele ressalta a auto-organização da Natureza. Esta se organiza por si mesma e tem sua própria finalidade. Por isso, o ser humano não a pode subjugar e nem explorá-la de forma indiscriminada. Assim a Natureza requer um paradigma de um agir responsável, isto é, de uma ética do dever.
O Imperativo Categórico de Hans Jonas está fundado no dever do agir sensato. É a ética da responsabilidade que deve servir de critério do agir humano. Como Kant (1724-1804), para Hans Jonas um preceito moral, conforme formulado no Imperativo Categórico, deve ter validade universal. Para Jonas, é preciso ampliar o formalismo da ética de Kant para uma ética do sentimento, da intuição, incluindo o respeito pela vida. No lugar de uma ética formal, Jonas apresenta uma ética de valores e sentimentos. A dimensão de uma responsabilidade pelo futuro, isto é, de uma perspectiva de tempo deve ter seu devido espaço no princípio categórico. Enquanto Kant prevê a contemporaneidade como horizonte da ética, numa relação de sujeitos, como viventes de um tempo e espaço próximos, Hans Jonas prevê as conseqüências, mesmo incertas, das ações de hoje para as futuras gerações.
O Princípio Responsabilidade em Hans Jonas não se debruça sobre um determinado aspecto, mas sempre suscita uma reflexão que contemple o todo: "Age de modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a terra". "O Imperativo Categórico propõe simplesmente que existam seres humanos, acentuando ao mesmo tempo o que e o o que do dever existir." (Jonas, p.92). Trata-se de uma idéia do ser e não do agir. Na ética prática, não se trata de uma reflexão metafísica sobre o existir e não-existir, mas a partir da constatação que existem, é necessário uma ética que questione a qualidade do existir. O primeiro princípio de uma "ética do futuro" não reside em primeiro lugar na ética do agir e, sim na Metafísica como ensino do ser. Que existam seres humanos implica numa ética pelo meio em que ele pode existir e da convivência neste seu habitat. Pode o não-ser ser preferido ao ser? Aqui cabe a questão colocada por Leibniz: Por que alguma coisa é e não é nada? O ser-no-mundo é independente de qualquer tese de sua própria origem.
De acordo com Hans Jonas, o Princípio Responsabilidade exige sabedoria, conhecimento e humildade. O conforto gerado pela tecnologia moderna, numa perspectiva hedonista, reduz a capacidade natural do ser humano para uma opção saudável entre os desejos da vida cotidiana e os fins últimos, o que dele exige sabedoria e determinação. A incorporação de novas necessidades em nossa vida concreta requer uma avaliação ética e conseqüente decisão para o bem presente e futuro.
Ciente da impossibilidade de previsão certa, é preciso reconhecer a ignorância e agir em vista de especulações, embora estas não ofereçam certezas. Uma possível irreversibilidade das conseqüências deve motivar o ser humano a buscar conhecimento científico para uma "ética informada", mas ao mesmo tempo atentar para um paradigma que integre a vigilância dos seus "super-poderes" para agir com responsabilidade.
Os novos poderes conferidos à ação humana pelo avanço científico-tecnológico resultam em impacto em nível coletivo e não apenas individual, global e não apenas local, portanto com magnitude incomparável, sob forma de política pública. A política, por sua vez, no que concerne às suas responsabilidades se vê mudada pelas quase ilimitadas possibilidades da ação humana.
Estão os Governos preparados para corresponder aos novos desafios e exigências? Que princípios e interesses regem as atuais decisões políticas referentes à proteção do Meio Ambiente?
            O novo imperativo de Hans Jonas se dirige à política pública tendo em vista um prazo longínquo. Não desconsiderando as ações imediatas, concentra-se nos efeitos últimos da continuidade da atividade humana, no futuro. A universalização não é hipotética, mas antes remetida ao todo coletivo, atendendo à medida real da sua concretização.
            Governantes e legisladores são os protagonistas de um mundo sustentável. O melhor Estado é também aquele que promove e zela pelo futuro através de políticas públicas de proteção ao Meio Ambiente, que sejam consistentes, abrangentes e duradouras.

É possível fundamentar uma dimensão futura na aspiração comum na perspectiva de um ethos mundial, assim é permitido às futuras gerações usufruir o mesmo encanto pela Natureza e ter garantida a sobrevivência, como é dado às atuais gerações.
            Para entender o pensamento de Hans Jonas e preciso percorrer o itinerário de suas reflexões por ele próprio apresentadas e, além disso, analisar a leitura que faz de Kant, identificando elementos semelhantes e distintos na elaboração do seu Imperativo Categórico, salientando-se em Hans Jonas a responsabilidade no âmbito político e o horizonte voltado ao futuro.
Problemas ecológicos sempre foram conhecidos, porém, não se tinha noção da dimensão dos reais danos que estes trariam para o ser humano, pois se fazia uma leitura mais ou menos pontual, sem considerar grande impacto sobre o Meio Ambiente e suas inter-relações com toda biosfera. Com a revolução industrial, os problemas relativos ao Meio Ambiente se intensificaram e somente então se passou a trazer estas questões para o âmbito de reflexões filosóficas como caminho para desenvolver relações éticas do ser humano com seu Habitat.
Entre inúmeros fatores a serem considerados, mencionamos aqui três dos que estão na pauta do dia das principais conferências sobre o Meio Ambiente:
  1. Tanto recursos renováveis como não-renováveis são usados em sempre maior escala;
  2. O ecossitema é onerado com emissões e poluentes;
  3. O espaço humano, constituído a partir de emigrações em função das indústrias, avança sempre mais. Nesta dinâmica o ser humano interfere em processos de amplitude global.

Estas preocupações, de uma ou outra forma, já estão na pauta de eventos e conferências, tendo em vista a necessidade de tomar uma atitude diante do panorama ecológico atual. Em 1972, o Club of Rome, chamou atenção, de forma dramática, sobre os problemas ecológicos da Europa, gerados pela industrialização do Norte. A ECO-92, Rio-92, Cúpula da Terra, é uma das Conferências das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), realizada no Rio de Janeiro. Teve como objetivo principal buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra.
Em abril de 2007, IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), divulgou a segunda parte do relatório sobre as mudanças climáticas na Terra. O estudo apresenta dados que responsabilizam ainda mais o ser humano pelas alterações do Meio Ambiente: 90% das alterações no Meio Ambiente são antropogênicas, ou seja, causadas pelo próprio homem.

Em todos estes ambientes a constatação é a mesma: É preciso, numa visão planetária, refletir sobre a responsabilidade do ser humano em relação à casa comum e desenvolver uma visão da Terra como a Pátria-Mãe, a Gaia, que permite a ele e todo o ser existir, viver e sobreviver com qualidade, se este tiver um sentido de responsabilidade para hoje e também em relação às gerações futuras. Enfim, é necessário uma reflexão sobre a responsabilidade ética do ser humano na sua relação com a biosfera.

Considerando todas as outras espécies dessa Terra, é essencial compreender que a comunidade humana desempenha, sem sombra de dúvida, um papel crucial tanto para a nossa própria sobrevivência quanto para a sobrevivência e integridade da comunidade terrestre como um todo. (O'Sullivan, 1999, p.49)


É importante refletir sobre a ética do agir não somente individual, mas, sobretudo, coletivo, onde a dinâmica tanto cumulativa como inter-relacional do desenvolvimento tecnológico motive para uma responsabilidade perante as conseqüências desta numa dimensão planetária.



Referências bibliográficas

BOFF, Leonardo. Ethos mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
______ Ética e moral: a busca dos fundamentos. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 1988.

DEMO, Pedro. Éticas multiculturais: sobre convivência humana possível. Petrópolis: Vozes, 2005.

GORE, Albert. Uma verdade inconveniente: o que devemos saber (e fazer) sobre o aquecimento global. Barueri, SP: Manole, 2006.
JAHR, F. Bio=Ethik. Eine Umschau über die ethichen Beziehung des Menschen zu Tier und Pflanze. Kosmos 1927.

JONAS, Hans, Leben, Wissenschaft, Verantwortung – Ausgewählte Texte, Stuttgar: Reclam, 2004
______Das Prinzip Verantwortung, Frankfurt a. M.: Suhrkamp Taschenbuch, 1979
______Das Prinzip Leben, Frankfurt a. M.: Suhrkamp Taschenbuch, 1997
______Philosophie: Rückschau und Vorschau am Ende des Jahrhunderts, Frankfrut a. M.: Suhrkamp Taschendbuch

MORIN, E, Cabeça bem Feita: Repensar a Reforma, Reformar o pensamento, Bertrand do Brasil,
______Educar na era planetária: O Pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana, São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2003.
______Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2000.
______O método 6 – ética, Porto Alegre: Sulina, 2005.
______O paradigma perdido : a Natureza humana. 5 ed. Portugal: Europa - América, 1973.
_____Para sair do século XX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
______O Desafio do Século XXI: Religar os Conhecimentos, Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

O' SULLIVAN, E. Aprendizagem Transformadora: Uma visão educacional para o século XXI. São Paulo: Cortez; São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2004.



Entrevista Aconselhamento Pastoral

Entrevista Aconselhamento Pastoral

25 de fev. de 2014

"Salvar a vida dos animais [..] é um dever para com Deus..."

"Salvar a vida dos animais, na medi­da do possível, é um dever para com Deus; se quisermos honrar o Criador, devemos respeitar e reverenciar suas criaturas assim como os animais, por mais que saibamos que Ele os ama também (Jon 4:11) e tenhamos em mente o mandamento Dele: ‘Não matarás!’"   (JAHR, Fritz. Revista - Centro Universitário São Camilo - 2011;5(3):242-275)

8 de fev. de 2014

Teologia Prática / Pastoral

Teologia Prática é "uma reflexão científica sobre a Igreja no seu edificar-se quotidiano, com a força do Espírito, dentro da história; sobre a Igreja, portanto, como "sacramento universal da salvação", como sinal e instrumento vivo da salvação de Jesus Cristo na Palavra, nos Sacramentos e no serviço da Caridade." João Paulo II.

Obrigado, Senhor, pelas maravilhas da criação!

PAI DO CÉU, OBRIGADA POR CADA GOTA DE CHUVA DE HOJE E, SE NÃO FOR PEDIR DEMAIS, CONTINUE MANDANDO A CHUVA DE QUE PRECISAMOS PARA NOSSAS NECESSIDADES BÁSICAS! EU VOU CUIDAR MELHOR DO MEIO AMBIENTE, TUA CRIAÇÃO, PARA QUE SE RESTABELEÇAM AS CONDIÇÕES CLIMÁTICAS E NÓS E AS FUTURAS GERAÇÕES POSSAMOS USUFRUIR DAS DÁDIVAS QUE TU NOS CONCEDES EM CADA CRIATURA TUA!